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O Portão

E lá vem Tom novamente... Tá, eu sei. Tom (5 anos) é o personagem principal da maioria dos contos, não que Jobim (4 anos) não seja, mas como na maioria das famílias, os filhos são diferentes e aqui em casa, contos não faltam a Tom. É uma fase latente, sabe?

Imaginem um garoto extremamente falante, alegre, questionador, barulhento, muiiito barulhento. Daquele que faz ruído a cada passo, que conversa escovando os dentes e as pernas quase alcançam o teto, basta estar no sofá...  De uma certa forma, percebo que ele acaba sem querer,  "inibindo" ou "abafando" Jobim algumas vezes. Mas estamos atentos a isso, e na verdade, talvez esta seja uma ótima oportunidade para Jobim lutar pelo próprio espaço e com as "armas" e do jeito dele. Vejamos! "Cenas do próximo capítulo..."

E este post é sobre a Subjetividade.  Sabe aquele espaço interno que é só seu? O"primo" da Caixa de Pandora, onde você elabora os sentimentos, as emoções, os pensamentos e traduz tudo isso para o mundo externo do seu próprio jeito? Então, este conto vai te levar ao encontro do subjetivo, na visão do meu pequeno GRANDE Tom. Vem comigo?

Como escrevi aqui, há um mês atrás fiz uma cirurgia "daquelas". A tal Endometriose atacou e por isso tive que tirar 30 cm do intestino. Não tem uma música que fala: " Falta um pedaço de mim, ou um pedaço de mim se foi"? Deve ter algum sertanejo que canta isso, eles adoram estas coisas... Então, um pedaço de 30 cm se foi, mas o bom é que eu emagreci, (Ebaaaaa) e agora estou quase 100%. E uma coisa eu aprendi nisso tudo: "Tudo se ajeita na vida. Até o intestino se ajeita.

Mas com este acontecimento nãoémolenão  e com toda a agitação e preocupação que uma grande cirurgia gera, meus filhos tiveram uma espécie de recaída. A psicóloga da escola suíça já tinha me alertado sobre esta possibilidade, já que estamos juntos há pouco tempo e o medo de "perder" novamente a mãe possivelmente geraria insegurança.

B A T A T A!

E gerou sim insegurança em TODOS ao redor. Ficamos agitados, "esquecidos" (tipo amigo do Alzeimer, sabe?), enfim, a família inteira padeceu.

Nas semanas conseguintes à cirurgia, percebi que Tom falava mais sobre o abrigo onde um dia morou. O que acredito ser um bom sinal, afinal, ele NUNCA falou nada a respeito. Sim, nunca disse um nome, nunca disse nada que o fizesse reviver aquele tempo que ficou pra trás. Pra ser sincera, apenas uma vez, quando ofereci um merengue (ou suspiro), ele me disse que havia uma vizinha que sempre dava isto a ele. Mas em um ano e meio foi a única vez...

Jobim já não verbaliza tanto. Talvez tenha algumas lembranças inconscientes, mas não diz nada a respeito do passado. Ele é mais novo e também não experimentou tantas coisas como Tom. E segundo a psicóloga, crianças oriundas de uma adoção tardia apresentam este tipo de comportamento mesmo, como se preferissem esquecer, apagar aquilo que foi vivido, portanto, simplesmente não falam nada a respeito. Mas... não falar é diferente de não sentir. As manifestações aparecem de alguma forma, sejam nas brincadeiras, nas atitudes, tudo pode ser uma alternativa para se expressar.

Mas e o portão gente?

Então, logo na terceira semana após a cirurgia, Tom falou algo sobre o passado, mas juro que não lembro o que foi... bom, resolvi aproveitar a oportunidade e pedir para que fizesse um desenho sobre o que estava me falando. E ele o fez.

O papel não exibia apenas o desenho em detalhes. Continha cheiro, sentimento. Além disso, ali estava um pedaço do passado dos nossos filhos, que desconhecemos.

No canto do papel, havia um desenho de caminhão de galinhas (comuns ainda em algumas regiões do Brasil), o qual ele tinha muito medo, pois as galinhas eram entregues vivas ao abrigo. Também havia um cheiro de macarrão, que segundo ele, era bom, mas que ele não quer comer mais aquele macarrão não, pois ele comia todos os dias.

Havia também no desenho, uma mulher muito parecida com uma das professoras dele aqui na Suíça (professora esta que vira e mexe tem alguma reclamação a fazer sobre o comportamento de Tom), por quê será????

Mas o mais incrível, foi o desenho do portão. Ele se auto-desenhou em frente ao portão principal do abrigo e disse que aquele era o lugar que ele menos gostava da casa.

Fonte: http://barile.info/ Um site delicioso de ver...


"_Eu não gostava do portão, pois ele abria só de uma lado. Ele abria só pra eu entrar e nunca abria pra eu sair". Tom, cinco anos e muita emoção.



Nunca tive um exemplo tão forte de Subjetividade como este. Para ele, este "portão" era mais que uma fechadura ou um muro. O portão era o que delimitava sua vida, era o que o impedia de ver as coisas do lado de fora.

O que ele via, eram pessoas legais que vinham e iam embora. Crianças que chegavam e permaneciam, pois a maioria (naquele abrigo) eram crianças com muitos irmãos. Ele via as inúmeras caixas e sacos de roupas e alimentos que chegavam em seu pequeno mundo de aproximadamente 100  . Ele via pouco, seu mundo era limitado a um pequeno quintal com poucos brinquedos e nenhuma estimulação. Aos quatro anos, quando os adotamos, para Tom todas as cores eram "veide", ele usava chupeta, fraldas e mamava na mamadeira...

Mas o portão abriu meu filhos! Abriu não, foi escancaradamente aberto e sem possibilidade de retorno, o que é bem melhor!

Hoje, você sabe todas as cores em duas línguas diferentes. A fralda tiramos há uns bons meses atrás e o mesmo aconteceu com a chupeta, com a mamadeira... Você não deu trabalho nenhum, afinal, você queria mesmo era crescer e já estava pronto pra assumir seus quatro anos de idade. E assumiu!!

Com você Jobim, conseguimos tudo isso também, mas em outro ritmo e em outro momento. Você é o fofo mais fofo que existe. Eu acho! E gosta de ser chamado de chuchu e eu adooooooro te chamar assim. Talvez um dia você morra de vergonha disso, mas quando eu te dou aquele agarrão e falo "Oi Chuchu da mamãe", você fica todo "pirulão."

O que posso dizer gente? Acho que a adoção foi a coisa mais importante que já fiz em toda minha vida. Me fez mais forte, mais madura... Também acho que tem que ter preparo, tem que ter peito pra enfrentar algumas barras e não tem que ter uma coisa: Sentimentos de Dó e Pena. 

Se tem uma coisa que respeitamos é a história destes meninos. Sabemos de muitos detalhes importantes como o fato de serem irmãos biológicos, mas confesso, são irmãos de alma também, eles se amam demais, se dão super bem. Tivemos a oportunidade de ver como são os pais biológicos, mas abrimos mão desta parte. Pra mim, na minha subjetividade, eles são nossos filhos e isto é o mais importante. No futuro, talvez queiram conhecer os pais biológicos... direito que não temos como negar. Isso é um fato comum nas histórias de adoção.

Enquanto isso, preparamos nosso coração e vivemos um dia após o outro e com a certeza absoluta de que fizemos a coisa certa!!!

Bisous, Pandora achando que entende alguma coisa de Psicologia... 

Comentários

  1. Ju, quanto e a consulta? rsrsrssr (Amiga achando que pode pagar). Bjs.

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  2. Que lembranças marcantes, como e bom ler....vcs sao iluminados por Deus... Bisous, Isabela...

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  3. Nossa, Ju, que coisa mais linda! E que incrível o Gabriel lembrando e colocando pra fora todos estes sentimentos. Sinal de que está se sentindo forte, auto-confiante, amado e protegido - minha vez de brincar de psicóloga hehehehe!

    Beijo e por favor, não deixe de me avisar quando vier para Hamburgo, hein? Marcamos um café com Kuchen, porque na Alemanha tem que sempre ter bolo :-)

    Karen
    http://multiplicado-por-dois.blogspot.com/

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  4. Fiquei com os olhos marejados.... o portão que só abre para entrar...

    Meu Deus, que tarefa linda essa de adotar, não? Que dom, que vontade, que presente! De Deus. Para vocês e para eles.

    Fantástico!

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  5. Lindo!! Bravo!!! Adorei seu blog, você e seus meninos!!! Que lindo isso do portão, tanta simbologia! Parabéns, amei seu blog e ele vai já para os meus favoritos.
    beijo,
    Bianca

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  6. Luciana Hidalgo de Lima2 de fevereiro de 2012 01:51

    Nossa......esse portāo me deixou emocionada !!!! Ainda bem que um dia ele abriu para sair !!!! Demais Ju parabėns pela sua atitude. Que a cada dia Deus te dê sabedoria na educaçāo e criaçāo dessas duas bençāos que Ele colocou na sua vida. Bjo Lú

    ResponderExcluir
  7. Eu não disse que não ocnsigo parar de ler??? rsrsrs
    Essas lembrançãso são fortes... chorei... chorei pq me identifiquei.
    Meu irmão teve uma passagem parecida, e até hj tem uma "lembrança do macarrão" (papai faleceu enós éramos pequenos. Mamãe precisava trabalhar, eu fui trabalhar tb, e ele ficava num semi internato-era só durante o dia-isso durou quase 2 anos,mas marcou a vida dele, que tinha só 6 anos).
    Mas são marcas que hoje nos fazem fortes, e tenho certeza que assim será com o Gabriel e com o Lucas.

    Beijos!

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