domingo, 4 de dezembro de 2011

Conto real de Natal

Um dia chuvoso no inverno suíço...
Ao acordar hoje, fiz meu café e enquanto todos dormiam (yes, I'm an early bird), sentei olhando o horizonte e elaborei em meus devaneios pensamentos de domingo:

_"O que eu gostaria de ganhar do Papai Noel?"


Na verdade, se eu pudesse escolher um presente, desejaria não ter escutado o que escutei ontem. Ou melhor dizendo, desejaria ter escutado uma história diferente.

E as histórias nem sempre são bonitas...

Quem dera se todas pudessem ao menos ter um final feliz?

Mas que final?

Estamos falando de um início. O início da vida de alguns...

≈≈≈

Neste Natal, uma amiga decidiu presentear uma instituição e me escreveu pedindo para que verificasse a quantidade de crianças do abrigo, onde meus filhos viveram por um tempo. Fiquei muito feliz com a iniciativa, principalmente por conhecer esta realidade de perto e saber que realmente necessitam de toda forma de ajuda. E ontem, pelo telefone, recebi de lá, cada detalhe... os nomes, as idades, a quantidade de crianças.

Peguei minha agenda, a caneta, e durante as anotações comecei a sentir uma espécie de dor misturada com indignação, difícil até em descrever... faltam-me palavras para tantos sentimentos. Foi cruel escrever esta lista, pois os nomes e rostinhos são conhecidos por nós e perceber que permaneceram por lá... Foi cruel relembrar as frases que ouvíamos quando chegávamos pra visitá-los, há dois anos:


_"Tia, me leva daqui tia, por favor."


_"Tia, você vai me levar pra ficar na sua casa?"


_"Tia, me adota".


Mesmo sabendo de toda a burocracia, de tudo o que envolve a adoção de crianças, principalmente crianças acima de quatro anos e que possuem irmãos, mesmo sabendo de tudo isso, eu realmente não esperava ouvir os mesmos nomes. Eles são os mesmos, mas agora, mais velhos.

Há dois anos, no Natal de 2009, antes de conseguirmos a Guarda Provisória de nossos filhos, estávamos neste mesmo abrigo. Dentre os presentes que havíamos levado, estava o da Stephanie, uma garotinha linda que mora lá com mais dois irmãos. O presente era um conjunto de maquiagem da Hello Kitty. Ela amou o estojinho!!! Gostou tanto que levou pra escola pra mostrar às amigas. E, claro, todas quiseram experimentar, principalmente o gloss.

Stephanie, então, ao voltar da escola, no outro dia nos encontrou e foi logo dizendo:


_"Tia, minhas amigas queriam muito usar e eu deixei. Mas deixei só um pouquinho, se não gasta, né?"



Já pararam pra pensar na quantidade de brinquedos que nossos filhos possuem?


E eu escrevo este post muito emocionada.

Como na história contada por Tom, para estas crianças, o portão continuou abrindo apenas de um lado.

≈≈≈

Portanto, Papai Noel, do fundo do meu coração, 


Desejo que crianças como estas, que vivem em abrigos, fadadas a esperar para que o portão abra para o outro lado, que aprendem a dividir o mesmo quarto com muitas outras, que carecem de afeto familiar, que se ajudam mutuamente... que elas possam sim, de alguma forma escrever uma história diferente. 


Desejo que possam continuar tendo esperanças, mas sem esperar por muito tempo. 


Desejo que pais, como nós, consigam adotar seus filhos e que possam sentir a mesma felicidade que vivemos hoje. 


Que o mundo seja mais justo e que eu nunca esqueça de ensinar aos meus filhos o verdadeiro valor da vida, em respeitar as necessidades do próximo e que isto, se eu conseguir plantar no coraçãozinho de cada um, será o presente mais lindo que um dia eu poderia almejar. 

Sim eu choro ao escrever estas palavras e fico muito tocada em relembrar esta fase, quando íamos visitar nossos filhos e tínhamos que os deixar e fechar o tal portão, ao sair.

≈≈≈

E nós? Fechamos o portão pra muitas coisas e sem querer, muitas vezes fazemos isso na educação e nos exemplos que damos aos nossos filhos.

Este foi meu Conto de Natal, meu desabafo e meu pedido para o Papai Noel,

Namastê, Mãe Pandora

12 comentários:

  1. Oi Ju, nossa obrigada por compartilhar mais este pedacinho da sua historia... Imagino como deve ser sofrido pra essas crianças. E como deve ser incompreensível para os pais que querem adotar e, por vezes, não conseguem fazê-lo por burocracia.
    Uma prima do meu marido tentou adotar uma criança aqui na Alemanha e não conseguiu por ter mais de 40 anos (e aqui diz-se que não deve haver ua diferença de idade entre mãe e filho de mais de 40 anos...).

    Beijo,
    karen
    http://multiplicado-por-dois.blogspot.com/

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  2. Oi Karen, a burocracia tem sua razão, mas não há como negar a frustração que uma mãe sente ao ouvir uma negação como esta que você citou, principalmente pelo motivo. O amor teria idade?? Obrigada pela visita!!
    Um beijo, Juliana

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  3. Karen, assim que respondi seu comentário, peguei uma revista na sala de espera do médico que dizia exatamente sobre o fato de muitas mães optarem por ser mãe aos 40 ou acima de. Então, seria normal se elas também pudessem adotar, né? Um beijo!! Obrigada novamente pela colaboração!!

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  4. Ai Ju, OOOO vontade de ter condicoes e ir la adotar todo mundo viu? Coracao de mae fica tao apertado com estas historias... Bjs.

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  5. A gente fica mal mesmo... e infelizmente é a realidade de muitas crianças pelo mundo.
    Um abraço de mãe então, uma na outra, pra gente acalmar o nosso coração.
    Bj, Ju

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  6. Ai, Juliana, esse assunto ´é tão delicado, né? Quanto mais o tempo passa pra eles, mais difícil fica de manter a esperança deles e isso é muito triste!
    Belíssimo pedido de natal!
    bjs,
    Marina

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  7. Tem um lencinho aí? :-/
    Tenho sentido que pretendo agir, fazer algo.
    E esse post me iluminou.
    Gratidão!

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  8. Que bom Bia!! Fico feliz que o texto tenha lhe trazido uma boa inspiração!!! Bjs, Ju

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  9. Ei Juliana!! Que pedido nobre!! Eu sou mãe pela primeira vez de uma bebe de 3 meses e realmente coração de mãe fica apertado ouvindo essas histórias!! Você faz a gente refletir sobre muitas coisas!! Obrigada!

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  10. Oi Ju, lindos seus textos.
    "Contos de Natal", desejo de todo coração que estas crianças e tantas outras espalhadas pelo mundo, possam ser acolhidas por uma mãe como você.
    Grande beijo
    Mônica Araújo

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  11. ...emocionante... No more words for now......

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  12. Estou tão apaixonada por sua historia que fiz um post falando do seu blog,acho que todos deveriam conhece-lo. Me tocou de verdade... Fico aqui me derretendo em lagrimas ...

    De uma olhada lá no blog
    http://maeparatodavida.blogspot.com

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