sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Adaptação Escolar na Suíça

Hoje eu quero desabafar escrever um pouco sobre uma forma diferente de Adaptação Escolar: a adaptação bilíngue.

Na Noruega, em Oslo, eu trabalhei em uma escola internacional e durante o tempo em que moramos por lá percebi que poderia ter explorado mais a oportunidade de viver em outro país, vivendo a cultura local em toda sua plenitude. Portanto, ao mudarmos para a Suíça, optamos por mergulhar na cultura mesmo, frequentando os mercadinhos locais, convivendo socialmente com os suíços e também, claro, optamos pela escola pública suíça. Não que o ensino em uma escola internacional privada deixe a desejar, mas apesar de tantos aprendizados multiculturais que adquirimos na comunidade internacional, também não vivenciamos o que gostaríamos sobre a própria cultura norueguesa... o que me deu a sensação de ter vivido em uma espécie de bolha o tempo em que morei por lá...

Aqui, na Suíça, a maior parte dos alunos (cerca de 95%) frequenta uma instituição pública na comunidade onde reside e somente 5% da população paga pelo ensino privado. A escola dos meninos por exemplo, fica  no topo de uma montanha, um lugar bem pitoresco, típico das paisagens daqui.

Mas, tantas coisinhas lindinhas que podem até parecer um Conto de Fadas, trazem muita dor de cabeça e insônia na mãe louca  muitos desafios diários. Se inserir na cultura local pode sim ser uma tarefa para... tchan, tchan, tchan, tcham, o Super Tom, que com apenas quatro anos e oito meses, foi o primeiro a segurar o rojão entrar na escola. Um guerreiro!! Sem brincadeira, "móh" orgulho dele.

A rotina dele é assim:


  1. Ao chegar na escola,  os alunos formam a fila e esperam pela professora do dia. Ele tem duas, uma para Literatura, Alfabetização e Artes e outra para Matemática, Música e Ginástica. Elas ministram as aulas em dias alternados;
  2. Assim que a professora chega, ela os leva para dentro da escola, onde os pais não podem entrar, a não ser que sejam convidados. Há na porta um cartaz pedindo respeito e ajuda na conquista da autonomia pela criança; Tá?
  3. Já na porta da sala, os alunos deixam seus casacos e toda a parafernalha (se inverno, ;-), e só então, um a um, após cumprimentar a professora com aperto de mãos, olhos nos olhos e dizendo "Bonjour" é que então, entram para mais uns picados momentos de aula. Vide aqui a saga de horários da amiga aqui...
  4. Dentro da sala, muito trabalho e diversão também, mas T.U.D.O, mas T.U.D.O mesmo com muitas regras e limites.
Então, há quase um ano, quando Tom adentrou para este mundo "milimetricamente" organizado, é que estamos fazendo a adaptação escolar dele. Isso mesmo, há quase um ano e é mais que compreensível o motivo...


  • No começo a dificuldade foi a aquisição da Língua. Tom já apresentava muitas dificuldades na fala, mesmo na Língua portuguesa. Trocava letras (V pelo F, o R não era pronunciado, CH pelo S...), o vocabulário (em português) era bem restrito (muitas palavras foram sendo substituídas... Perdão pelas palavras a seguir, mas realidade é realidade: a palavra "bosta" foi substituída por cocô, "mijar e cagar" por fazer xixi e fazer cocô, "peidar" por fazer pum)  e a conjugação verbal... bom, até hoje temos que ajudá-lo a construir uma frase corretamente. Mas isto vem acontecendo, aos poucos e cada dia mais e mais. Desta forma, a aquisição de uma nova língua ficou um pouco mais lenta, devido às inúmeras intervenções que ainda fazemos no português, mas o melhor de tudo isto, é o fato de tanto ele como o mais novo aprendem o Francês sem vícios de linguagem e da forma mais adequada possível. Ufffa!!!! 
  • Outro complicador foi a socialização. "Mergulhar na cultura" pode muitas vezes significar dar "aquela barrigada na piscina"... Lembra da dor amigo (a)? Então... no começo, as professoras enviaram uma carta aos outros pais da escola informando que estavam chegando alguns brasileiros na comunidade e que falávamos Português e Inglês. Isto foi muito bom por um lado. Conheci uma grande amiga, a Dominique, uma suíça que incrivelmente é super "open" e me ajuda horrores aqui. Por outro lado, recebi olhares estranhos durante muito tempo... até começar a arranhar meu francês indígena. A partir daí, as coisas melhoraram fortemente;
  • Ele tentou resolver suas dificuldades de uma forma diferente. Como não entendia muito o que estavam falando, queria apenas brincar na sala de aula. Uma das muitas reclamações que tivemos foi a de que ele "mexia" em tudo, abria caixas para ver o que tinha dentro, abria portas... claro, explorar um ambiente desconhecido é a melhor forma de conhecê-lo, não?? Enfim... fizemos muitas mandalas juntos...
Hoje os confetes são para Tom. Ele merece, ele merece!!! Comigo!!! Todo Mundo!!! Ele merece!!

Ele enfrentou discriminação (claro que eu estava lá, nos bastidores, enfrentando um por um), preconceito (brasileiro pode ter uma fama linda e uma nem tão boa assim), e segregação, o que ao meu ver, foi o pior de todos os outros citados acima. 

E vocês sabem, né?  O pai trabalha e o rojão na maioria das vezes (salvo alguns casos), fica na mão de quem??? Quem?? Da mãe...

Eu estava lá!! Fiz e faço o que está ao meu alcance. Virei voluntária da escola, fiquei literalmente (como muito bem disse uma outra mãe blogueira), "atrás da moita da escola", procurei a psicóloga da comunidade, pedi inúmeras reuniões (a última foi ontem e tem outra marcada pra semana que vem), li e leio livros e os blogs "dazamiga", escrevo, tenho dor de cabeça, vontade de sair correndo... enfim, Mulher Maravilha só existe em revista em quadrinhos... fico exausta!! Mas as últimas semanas tem sido um presente atrás do outro. 

Semana passada uma mãe que mal falava "Bonjour", disse que sua filha pisca os olhos apaixonadamente ao falar de Tom. Uma outra colega de classe, fez uma festa de aniversário (que aliás merece um Post) e o convidou. Ao chegar na casa da menina, percebi que entravam muitas meninas vestidas de princesa  e não vi sequer um menino chegar. Assim que fui buscá-lo, perguntei à mãe: 

_Os outros meninos já foram embora? 

_Não, Tom era o único. Mia (nome da aniversariante) fez questão de convidá-lo, ele era o príncipe da festa!

Gentemmmm. E eu escuto isto, tenho que manter a formalidade suíça e sem muita empolgação, responder como uma miss: 

_Que bom, fico muito feliz em ouvir isto. Você é muito gentil!

Minha vontade era abraçar todo mundo e gritar " GOLLLLLLLLLLL" 

*** 

Mas, voltando o assunto. Hã, Hã...

Hoje, pela primeira vez, eu recebi este recadinho cheio de elogio da professora:




Tradução: Gabriel trabalhou muito, muito bem. Melhores saudações...
Esta foi a melhor parte do meu dia!!! E ao sair da escola, um pouco antes de terminar este Post, um outro coleguinha veio convidá-lo para passearmos juntos no próximo domingo. Este mérito é todo dele...

Esse é o Super Tom, este menino ainda vai longe...

E Jobim? Ahhh, ele também enfrenta seus desafios... claro que bem mais fáceis, já que ainda não está matriculado em uma escola regular e sim, em uma Garderie. Mas ambos me enchem de orgulho! Cada um do seu jeito.

Ownnnn, tô tão sensível hoje... Tô precisando de colo...

E Pandora quer saber o que tem aí, dentro da sua caixinha: 

Você também já enfrentou uma situação problemática que parecia interminável, complicada, mas que fora aos poucos, com esforço, se solucionando? Obrigada por compartilhar comigo!


Bisous, Pandora, mãe de dois super-heróis!!!


10 comentários:

  1. Oi querida... é difícil passar por cetos percalços, mas quando eles findam... que alegria! Ou, não precisa nem terminar o problema, basta ver a luz no fim do túnel, ver a evolução do seu bebezinho... parabéns ao Super Gabriel, de fato, um aprendizado e tanto, um lindo!!!

    Que sejam muito felizes por aí!

    Beijos grandes!

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  2. Oi Dani, você é muito querida!! Obrigada pelas palavras!! Ju

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  3. Mas o Gabriel é muito fofo mesmo...
    O príncipe da festa, que coisa linda... Encanta todo mundo, as amiguinhas todas apaixonadas. Ele deve ser muito lindo mesmo.
    Boa sorte adaptação de vocês ai.

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  4. Ah Juliana Pandora, como toda mãe com filho pequeno temos dificuldades diárias, mas que não chegam nem perto das suas... Quanto à escola meu filho começou com 8 meses no berçário I porque eu tinha que voltar a trabalhar, atualmente está com 1 ano e 4 meses e chora TODOS OS DIAS quando eu deixo ele lá, claro que depois passa mas na hora é sempre uma tragédia para ele :( Eu sempre brinco que quando ele chorar para sair do colo da professora para vir comigo aí o "bicho vai pegar" pro lado dele, hehehe. Beijos e parabéns pelo post, como sempre ótimo!! E parabéns pelos super meninos também, eles não seriam ninguém sem uma super mãe como você, parabéns do fundo do coração, mais bjos :*

    Patricia http://filhodamaeedopaitbm.blogspot.com/

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  5. Que orgulho do Gabriel Ju!!! "Vim, vi, venci" !!!
    Tão pequenininho é já com grandes conquistas!!!! O príncipe!!!!
    Me fez lembrar na verdade da minha própria experiência de quando cheguei na Suíça, não falava nada de francês, e não muito (nada) contente de ter vindo para cá, não quis aprender o francês. Aos 6 meses comecei um curso de Estética, porque não conseguia "me encontrar" na comunidade de "expatriados".
    Em uma turma de 25 alunas éramos duas as estrangeiras, eu e uma russa, mas ela falava francês, não escrevia nem lia, mas morava aqui já há 10 anos e falava aquele francês-russo. Ninguém falava nada que não fosse francês, todas eram daqui...era como a escola publica do Gabriel ;)
    No primeiro dia de aula eu não entendi absolutamente nada do que ninguém disse... nada, nada, nada...nada. Cheguei em casa com dor-de-cabeça, chorei muito e pensei que nunca conseguiria terminar esse curso.
    Para encurtar a história, eu tinha aula das 8h00 às 17h00, 3 dias por semana...por 2 anos.
    3 meses depois eu já falava francês. 1 ano mais tarde eu trabalhava na clinica-escola. Ao final dos 2 anos eu me formei, com provas semanais escritas e práticas, matérias como anatomia, quimica, cosmetologia, etica, etc, passando por uma "expert" que veio diretamente de Paris para nos avaliar por 2 dias (para o diploma internacional), tudo em francês, e eu era uma das melhores da minha turma, na teoria e na prática.
    Por 2 anos eu vivi como elas.
    Hoje eu "me encontrei" na comunidade de expatriados, porque é bom sim viver a cultura local, mas só quem é como você, sabe o que vc está passando... ;)

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  6. Aline Patrícia,
    ele é um fofo de verdade!! Obrigada!!!

    Patrícia,
    comprei um livro e nele há uma ilustração sobre a criança que chora pra ficar com a professora, rsrsrs. Agora vou me lembrar de você...

    Nanete,
    Que barra heim? Mas também que vitória no final!!! Sua força de vontade são um exemplo pra muita gente, vou me mirar nela!!
    Um beijo

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  7. Ju, eu tinha certeza que os (as) suíços (as) - principalmente as suicinhas - não resistiriam por muito tempo ao charme, simpatia, doçura, alegria, e principalmente aos cílios do meu amado sobrinho! Esse é o Bao!

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  8. Parabens, por esta vitoria,com fe e sendo perseverante virao outras mais... muito mais... ser mae e assim, a gente sofre acha que nao vai dar conta, mais da e vem essas luzes para brilhar... e ai a gente ve que esta no caminho certo... continue assim... beijos aos meus sobrinhos queridos, fiquem com Deus... (Ser mae e padecer no paraiso)... Amo vcs...

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  9. Juliana, acho que você foi modesta ao traduzir o bilhete da professora. Vi bem que ela escreveu très très très!!! E ainda tem um MAGNIFIQUE no meio, heheh! Parabéns!

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  10. Clarinha, tem razão!! Mas sabe como é, né? Tenho babado tanto na cria que às vezes desconfio até se não sou eu a exagerar, rsrsrs.
    Mas fala aí... não é pra babar mesmo?? Obrigada, bj

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