terça-feira, 20 de março de 2012

Série co-autores, conte sua história no blog! Hoje o tema é aborto e foi escrito pela De.

A palavra Aborto já soa estranho né? Fazer um aborto, é uma discussão interminável, mas sofrer um aborto, com certeza, é a pior delas.

Como já descrevi em outros textos, eu fiquei grávida duas vezes. As duas foram conseguidas através da Fertilização in Vitro, mas, os abortos aconteceram após algumas semanas, e infelizmente, os dois da mesma forma, o chamado aborto retido. E digo, só quem vive um aborto, sabe o quanto é complicado dar nome aos sentimentos e quem vai falar sobre isto hoje, é a De., do blog Bem que se Quis.


Ameaça de aborto, abortamento, aborto incompleto, aborto.
De uma hora pra outra, essas palavras feias passaram a povoar os meus dias, e pior, minhas noites.Até hoje, um mês depois de tudo começou - e ainda se disfarçava de ameaça - acho difícil pronunciar, e estranho escrever: ABORTO. (não é desconfortável?)
Deve ser por isso que quase ninguém fale sobre o assunto. Talvez por tristeza, ou por vergonha de se mostrar incapaz de levar uma gravidez adiante, ou para não chamar para si o sentimento de pena alheio. 
Quando o aborto finalmente se concretizou, na forma de um número que em vez de subir, desceu, eu me vi tendo que consolar mãe, irmãs, amigas e sogra, em vez de eu mesma ter sido consolada por elas.
Elas. Minha mãe, antes dos 27 anos, já tinha 3 filhos. Quando foi fazer exames para uma laqueadura, se descobriu grávida novamente, e desta vez de gêmeas! Uma das minhas irmãs engravidou duas vezes sem querer, sendo que a primeira foi aos 16 anos, e a segunda, logo depois de ser demitida. Outra irmã teve duas gravidezes de sucesso em pouquíssimos meses de tentativas. Família de parideiras, todos insistem em dizer.
Sempre pensei que comigo não seria diferente. Que teria a maior facilidade do mundo para engravidar. E de todos os medos que eu tinha, o aborto nem passava nos piores dos meus devaneios. A velha história de que comigo não vai acontecer.
Felizmente, se é que se pode dizer assim, comecei a ter um sangramento exatamente no dia em que saiu o resultado positivo do exame. Fui mãe e comecei a deixar de ser no mesmo dia. Graças ao único laboratório da face da terra que libera o resultado só depois de 5 dias, eu não cheguei a absorver 100% da maternidade. Mas isso não quer dizer que tenha sido mais fácil pra mim. Foi tão difícil quanto.
Pensar que esse grande sonho finalmente havia sido conquistado, e de repente ele se esvaia, gota a gota. Me achar ridícula por ter comprado aquele parzinho de sapatos no dia em que fiz o teste de farmácia. "Tolinha, estás pensando que é fácil assim?", um anjo safado, um chato de um querubim devia estar rindo da minha cara lá do alto. O que mais doía era achar que eu não merecia. Pensar que eu havia feito tudo o que estava ao meu alcance, repouso, remédio, exames, cuidado, e não estava adiantando. Pensar que eu não tenho o mesmo direito de todas essas mulheres (cada dia mais!) que circulam por essas ruas esfregando suas barrigas e bebês saudáveis na minha cara.
"A Natureza é sábia". Foram as palavras que mais ouvi em todo esse processo. Acho que não há nada diferente a se falar a uma mulher que aborta. E não posso discordar. Inclusive, acho que foi essa mesma Natureza (há quem chame de Deus, de Acaso, de Universo, eu chamo de Natureza) que fez com que o laboratório segurasse o resultado do exame para o dia em que ele passaria a não ter mais validade. A Natureza poupou-me de me iludir com algo que não ia adiante. Agradeço a ela.
Ameaça de aborto, abortamento, aborto incompleto, aborto. Jamais deixarão de ser palavras feias.
Mas, como a própria Ju me disse, falar sobre o assunto, ou melhor, escrever, ajuda suavizar a dor que causam. 
Fale! Escreva! Tuas palavras, além de te ajudar a passar por tudo isso, podem amenizar o sofrimento de outras mulheres.
Imagem da Web
Obrigada pela participação De.!!  Vou correr e deixar meu comentário...

Se você tem uma história real, como esta da De., da Lêda, da Lavínia, da Fê Lopes e quer colocar pra fora, desabafar, compartilhar, envie um e-mail para o blog, 

contosdeumamaepandora@yahoo.com

8 comentários:

  1. De. quando tudo isto aconteceu comigo, eu não contei a ninguém. Apenas a família sabia, mas mesmo assim eu não falava do assunto, pois tinha vergonha, exatamente como você descreveu.

    Os amigos vieram a saber depois de muito tempo.

    É assim né? A gente vai aprendendo com a vida a aceitar as coisas e depois de um tempo passamos a entender os motivos. Tenho certeza de que o que aconteceu com você é o que os médicos chamam de "esperado" para as primeiras tentativas. Não desanime, ainda tem muita coisa boa pra acontecer!!

    Muito obrigada por compartilhar comigo e com meus leitores estes sentimentos tão difíceis de colocar nome.
    Um beijo grande, Ju

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  2. Oi Ju, que legal me ver aqui!

    Tenho cada dia me conformado mais com o que aconteceu.

    A pontinha de tristeza está aqui, acho que só vai embora quando eu finalmente conseguir.

    Mas agora estou deixando rolar... sem cálculos, sem calendários, sem expectativas.

    Aprendi a não ter pressa :)

    beijos

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  3. Bonito texto, intenso.

    Deve ser realmente mto dolorido, e, como ela mesmo disse, ainda bem que não teve tempo de assimilar a maternidade, especialmente, de contar a todo mundo - e ser questionada depois o porquê de não ter uma barriga condizente com a "gravidez". Deve ser mto difícil e todas as mães que perdem seus bebês têm o meu mais forte e solidário abraço, esperançoso de que a natureza (ou Deus, ou Universo) traga de volta o que te foi tomado.

    Um abraço fraternal
    Dani

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  4. Todos os dias eu venho aqui... acho que umas 3 vezes ao dia (ou seriam 5??). Não sei quantas, mas cada vez que chego aqui e tem uma história nova, meu coração se enche de emoção, esperança, amor... os sentimentos são sempre bons!!
    Não sou mãe, nunca engravidei, nunca passei por muitas das situações contadas aqui, mas 'conhecer' pessoas, principalmente mulheres, com tanta fibra, apesar das rasteiras que a vida nos dá, me faz acreditar que ainda podemos mudar o mundo!!
    É sempre maravilhoso ser agraciada com as histórias contadas aqui... meu dia ganha outra cor, e posso garantir que a cor é pra lá de linda!!!
    Um grande beijo e obrigada por partilhar(em) sua(s) vida(s), histórias, perdas e vitórias!!

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  5. Lindo texto...triste, bonita e emocionante história da De...

    Jú, cada vez mais fico fã desse cantinho lindo!

    bj

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  6. ju querida, que lindo o tema.. estou em lagrimas....
    no final do ano passado tive um aboto.. ou miscarriage como falam aqui...
    foi bem dificil... pois como a De, foi tudo meio rapido... descobri numa quarta, na sexta ja estava com sangramento... na segunda foi ao medico e ouvi: " olha o primeiro bb esta bem, mas o segundo vc ja perdeu".... pois eh.. imagina o susto misturado com tristeza e sei la mais o que.... a medica quis me ver na semana seguinte e este primeiro bb ja nao tinha mais batimento cardiaco...
    fui fazer o procedimento de limpeza de utero dia 22 de dez....
    dia 23 era nivel da Lena, 24 natal e logo ano novo.... minha familia aqui para comemorar as festas.... e ir comigo para o brasil dia 4 de janeiro...
    confesso que nem tive tempo de elaborar o luto.... nao consigo pensar direito e ainda eh bem confuso tudo que sinto sobre o que aconteceu...
    enfim.. queria compartilhar...
    nao he facil e a dor eh imensa.... e ouvir coisas como.. ah.. nada eh por acaso... ou tudo tem sua razao, eh tao cliche que ntra por um ouvido e sai pelo outro... pois o que a gente sente, so quem passou sabe...
    bjs dani

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  7. Paula, sinta-se sempre muito bem vinda a este cantinho!! Fiquei super feliz com suas palavras, beijos...

    Danielle, que bom que compartilhou sua história. É horrível sentir sozinha, sei bem o que é isso. Um beijo grande e obrigada, :-)

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  8. Adorei o texto!
    Nunca passei por um aborto, mas alguém muito próximo de mim sim. E ela também vem de uma família onde nunca se teve dificuldades em engravidar. Sei que ela sofreu muito com isso, muito mesmo e o pior dia, pra ela, foi quando seu irmão conta que a namorada estava grávida... Ela se sentiu literalmente injustiçada. E foi muito difícil sair desta situação. Mas não desista, De! Ela teve um menino quase um ano depois deste dia tão marcante e agora está grávida novamente!

    Beijo,
    Karen
    http://multiplicado-por-dois.blogspot.de/

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