quinta-feira, 12 de abril de 2012

BC: Infância Livre de Consumismo -Editado


Achei muito pertinente o tema da blogagem coletiva de hoje e há dois anos tenho pensado muito sobre isto, afinal, quando meus filhos "nasceram" em minha vida, o consumismo e a publicidade infantil já faziam parte da pequena experiência de vida que tiveram anteriormente. Queria também fazer um paralelo com a legislação suíça a respeito do tema, mas como o tempo para a pesquisa está escasso (as crianças estão em Férias de Páscoa), tentarei explicar brevemente o que observo diariamente neste país.

No início da adoção, T. tinha quatro anos e J. estava com quase três. Eu e meu marido já morávamos havia dois anos em Oslo, na Noruega e como eu trabalhava em uma escola por lá, pude aprender muito, principalmente no que se refere ao respeito à infância.

Pois então, quando parti para o Brasil, sai da Noruega com uma mentalidade "nórdica" e como me tornei mãe de dois garotos e não de dois bebês, eu já tinha uma grande preocupação com a questão da educação deles.  Me tornar mãe e permanecer no Brasil pelo período de quatro meses e meio, para o acompanhamento da assistente social e da psicóloga durante o período inicial de adaptação, foi um grande desafio devido às diferenças culturais.

Alguns fatores que me causaram estranhamento na época ( há 1 ano e 11 meses):
  1. T. e J. vieram com o hábito de assistir a TV aberta, portanto, assistiam aos apelos publicitários para a pequena infância dentro do abrigo onde viviam... o que torna a cena pior ainda. 
  2. Assim que cheguei, percebi que havia uma febre chamada "Ben 10"(desenho animado). Resolvi então assistir alguns episódios.  E?? Parei no primeiro. Na minha opinião, mais uma produção voltada para o público infantil que incita a agressividade nas crianças. Onde está a censura? E como estes, existem muitos. 
  3. Fora do circuito televisivo, vi muitas crianças "uniformizadas", todas me parecendo sair de uma mesma forminha, as mesmas marcas...caríssimas expostas nos peitos das crianças. Voilà!

Claro que esta não era a realidade de nossos filhos até aquele momento, mas, caso permitíssemos, poderia passar a ser, certo? 

Minha atitude foi ser a mãe chata. Tive que assumir este papel inicialmente para tentar "colocar ordem na casa" e cortar o mal pela raiz, antes que crescesse. Eu e meu marido tomamos condutas muitas vezes MEGA questionadas, mas continuamos acreditando fielmente na nossa linha de raciocínio "nórdico", que simplesmente permite que sejamos livres para usar e abusar daquilo que realmente nos é caro (querido), sem ficarmos presos a padrões, rótulos e/ou fanatismos insanos por quaisquer que sejam os personagens e/ou marcas. 

Nossas bem intencionadas chatices foram:

  • Durante os meses no Brasil evitamos (sem proibirmos) a TV aberta, passamos a assistir alguns desenhos animados na TV fechada (onde o apelo publicitário era menor). 
  • Permitimos o uso das roupas que eles ganharam e que estampam personagens. Não desaprovamos e nem incentivamos. Apenas tratamos como roupa, sem super valorizar o produto. 
  • Nada de video-game, muito parquinho, muita interação com os primos, com a família, muita exploração de diversos ambientes, muita caminhada, bicicleta, bola, barro, areia, água, animais, natação...
Foram meses de uma espécie de "purificação", mas... pelas criticas recebidas, tais como: "Eles são apenas crianças... Deixe-os assistir televisão... Qual o problema em comprar roupa do ... ?... Enfim, nos mudamos da Noruega para a Suíça e pra quem achava que eu era rígida, imaginem as pessoas por aqui.

Para minha grande surpresa, a primeira coisa que percebi quando nos mudamos pra Suíça, foi o fato de não haver um controle tão grande em relação a publicidade infantil, como seria esperado para um país como este, com tantas regras de condutas sociais. Na verdade, percebo que não há esta preocupação devido ao fato da própria população já ser muito disciplinada, ou seja, a responsabilidade aqui,  passa a ser exclusivamente dos pais. E pelo o que tenho visto (dos suíços), eles levam as coisas bem a risca. 

Até o momento, o que percebo por aqui? 

Só encontrei a imagem em alemão...
  • A maioria dos coleguinhas da escola dos meus filhos, são suíços e assistem TV somente aos finais de semana, portanto, tem menos acesso a este tipo de mídia. Em contrapartida, existe uma grande rede de supermercados aqui, que realiza algumas promoções durante o ano destinadas ao publico infantil, como jogos e coleções que viram uma verdadeira febre entre as crianças. Ou seja, os pais "são obrigados" a comprar nesse supermercado porque todos os coleguinhas possuem os tais brinquedos, trocam entre si na escola, etc. Na minha opinião, é um apelo direto ao publico infantil e uma maneira de persuadir os pais a consumir mais produtos. Um exemplo disso, foi a última promoção chamada  "Animanca", com o seguinte apelo aos pais: "Bon pour les neurones*". Então, dá pra imaginar o tamanho do consumo no final das contas, literalmente. 
  • Um outro ponto, são os canais de televisão e as propagandas infantis na TV. Não diferem muito do Brasil, ou seja, aparentemente não existe nenhuma legislação ou censura  e o acesso dependerá dos pais permitir ou não... mas tente argumentar com ou proibir uma criança de dez anos.?!  Complicado.         
Portanto, aqui em casa nossa conduta não é nada radical. Atualmente Tom está com quase seis anos e Jobim, com quatro anos e oito meses e seguimos o bom senso (não o senso comum), adaptando o que acreditamos ser saudável e evitando aquilo que não gostamos. Apesar de nunca mais ter assistido, continuo não gostando do Ben 10 e Cia e não incentivo o uso de nenhuma marca ou personagem, mas não os proibo de usarem, caso ganhem de presente (pois eles ganham e gostam). 

Quanto a TV, permitimos que assistam durante a semana, mas nada com exagero e não permitimos alguns canais com desenhos animados tolos e agressivos. Também somos adeptos aos DVDs e tudo aquilo que acreditamos ser lúdico e educativo.

Agora, no Brasil, penso que o desafio é mais difícil. Eu acredito que a legislação deve existir sim, no sentido de criar uma censura ou um orgão que certifique a adequação do conteúdo infantil para a TV e outras mídias, mas infelizmente também não creio que a proibição total seja algo viável. Infelizmente, na minha opinião, a maioria dos brasileiros é extremamente consumista e muito vinculada aos padrões norte americanos, portanto para que haja uma adequação na legislação, precisamos que movimentos como este sejam lidos, ouvidos, para que mais e mais pessoas possam se conscientizar.

*A discussão não está voltada para a questão da validação ou não do jogo "Animanca" e sim, ao apelo publicitário, bem como, a forma como as promoções são vinculadas às compras do supermercado. 

Para quem quiser saber mais a respeito do tema:
Instituto Alana
Grupo de discussão no Facebook do Infância Livre de Consumismo
fanpage no Facebook  do Infância Livre de Consumismo

Hoje, enquanto esta publicação já rolava no blog, eu estava com meus filhos em uma biblioteca e encontrei este livro:
O título parece sugestivo hã? 



13 comentários:

  1. Bom dia, tenha um ótimo final de semana :)

    beijos

    Dri Viaro
    www.driviaro.com.br
    www.ameliasdesalto.com
    www.ateliefesteiro.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Ju,
    Adorei a postura de vocês. Acho que é por esse caminho, nem oito nem oitenta. Né?
    Mas que é uma grande responsabilidade para nós, ahhhh isso é....
    Beijos, beijos

    ResponderExcluir
  3. Adorei, Ju!!!

    Vc me incentivou a fazer o meu post - eu não ia escrever, pq sinto que não tenho a contribuir no assunto, mas... li o teu e fiquei inspirada!!!

    Adorei!

    Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Concordo com vc que somos muito influenciados pela cultura dos EUA, de comprar, comprar, comprar, bem diferente da Europa. Acho que não dá pra controlar e proibir tudo, principalmente quando as crianças crescem, mas dá pra ir segurando enquanto eles são pequenos, tentando deixá-los mais "imunes" a tanto apelo.
    Como escrevi no meu post, seria bom não ter mais essa preocupação, não?
    Bjos

    ResponderExcluir
  5. Juliana, que demais, adorei seu post.
    Imagino a dificuldade de manter estes padrões com meninos já maiorzinhos, ao mesmo tempo em que vc se adaptava a ser mãe deles e vice-versa.
    Agora eu acho que é justamente pelo fato de os brasileiros serem (ou estarem se tornando) extremamente consumistas e só importarem o que há de pior dos hábitos dos norte-americanos (que têm muita coisa boa, mas isso não chega lá, já notou?), é que deve haver a proibição.
    Se os meios de comunicação de massa e os publicitários não se auto-regulam, se os pais não se controlam, penso que o Estado precisa agir, sim, que este é um problema social, que isso afeta a saúde física (incentivo ao consumo de porcarias) e mental (baixa autoestima, bullying, entre outras coisas) das nossas crianças.
    No mais, vou anotar o título deste livro e ver se tem no Amazon, já quero ler (e, de quebra, treino o meu francês).
    Beijos

    ResponderExcluir
  6. É Paloma, pensando por este lado, acredito também que a regulamentação tenha que ser mais severa.
    Quanto ao livro, penso que deva ser muito bom, também quero ler.
    Beijão, Ju

    ResponderExcluir
  7. Oi, Juliana!
    Eu tenho contato direto com a mulher dele, a psicóloga Suzana, ela sabe que eu moro na Itália e nada me disse sobre a vinda dele p cá p Europa. Acho que não veio não.
    Obrigada pela visita em meu blog. Estou te seguindo.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  8. Acho que hoje em dia temos que ter pulso firme, sermos radicais mesmo. Parabéns, super apoio a postura de vcs!
    Enquanto aguardamos nosso filhos, nossa maior preocupação é justamente essa. Bom saber que não estamos sozinhas! rs Beijãoo

    ResponderExcluir
  9. Fiquei tão encantada com sua postagem que decidi fazer um post sobre o assunto tb.
    Parabéns e tenha certeza de que vc está formando futuros homens de bem!
    Bjs

    ResponderExcluir
  10. Muito bom, Ju!
    Realmente o seu desafio foi incrível: ter que lidar e rever hábitos já adquiridos não deve ser fácil.
    Engraçado saber que na Suíça, então, as coisas são um pouco diferentes da Alemanha. Aqui tem basicamente dois canais para crianças: um com e um sem propaganda. Fica fácil optar, né? Mas pra mim, tudo depende dos pais. E o fato é que os pais brasileiros estão muito consumistas. Vêm para o exterior, se encantam, mas levam de volta na bagagem apenas produtos, nem sempre ideias. Uma pena, um desperdício...

    Beijo,
    Karen

    ResponderExcluir
  11. Excelente!
    Cheguei aqui por indicação de Paloma e adorei sua reflexão, mas confesso que eu esperava mais da Suiça!
    Abraços.

    ResponderExcluir
  12. Muito interessante isso da Suíça não ter tantas regras. Mas, acho que aí os pais tem mais apoio do governo, de maneira geral, para educar as crianças, né? Com licenças mais estendidas, incentivos financeiros e educação pública acessível fica bem mais fácil. E muito boa essa sua observação sobre o Brasil, sabe? É um absurdo as crianças ficarem vendo tv nos abrigos!!! Beijos

    ResponderExcluir
  13. Concordo em numero e grau... postei algo parecido no blog... dá uma fuçada lá.
    bjs

    ResponderExcluir

Seja bem-vindo(a)! Sente aqui na varanda que eu vou passar o café!