sábado, 2 de junho de 2012

A exposição e a intolerância nas relações.

A exposição não é algo fácil para muitas pessoas e eu, por incrível que pareça, sou uma delas. Mas daí você pode ler os textos que escrevo e assistir aos vídeos em que participo e pensar "Que nada", mas é difícil sim, quer ver?

Vem comigo no desenrolar do devaneio...

***
Me "expor" ou melhor, expor minha história, meus sentimentos mais íntimos e muitas coisas sobre nossa vida foi como aquela pessoa que para perder o medo de altura teve que enfrentar uma viagem de balão ou aquela que por medo de insetos, teve que colocar as mãos dentro de uma caixa vedada cheia de surpresinhas indesejadas....

E eu explico o motivo de tanta neurose preocupação:

A adoção ainda é um tema polêmico. Se você ler os comentários que muitas pessoas deixam abaixo de cada artigo ou cada matéria sobre adoção em sites de grande repercussão, nossa, você verá o quanto ainda existe de preconceito. Uma grande maioria é ignorante, não lê e não conhece sobre o assunto e uma boa parte é incrivelmente induzida a tirar conclusões erradas, como muitos jornalistas despreparados o fazem, destacando a adoção em manchetes como: "Filho adotivo discute com os pais e bate o carro" ou "Filho adotivo é autor de uma chacina..." Enfim, as pessoas passam a acreditar que filhos adotivos são problemáticos e por aí vai.

Também lá no passado, quando fiz a primeira cirurgia de Endometriose, escutei tantas bobagens a respeito do tema que foi então que percebi que muitas pessoas carecem de informações e de bom senso. Falaram de tudo, que eu tinha câncer, que eu havia retirado o útero, que eu não tinha mais ovários... enfim, as pessoas se acham no direito de falar o que querem e o que não querem sobre a vida alheia.

Depois de muitos anos, quando fiz os primeiros tratamentos para engravidar, eu tinha cá comigo que aquilo era algo bem fácil, eu engravidaria de trigêmeos e seríamos felizes para sempre. Mas vieram os abortos e com eles as curetagens e eu fui apresentada ao mundo adulto ("Oi?!").  E a dificuldade maior foi principalmente em ter que lidar com o sentimento de impotência que nasceu em mim, um sentimento de incapacidade, principalmente quando me deparei com o fato de ter feito os tratamentos, de ter engravidado duas vezes e não ser capaz de levar isto adiante... Ahhh, aí o bicho
pegou...

Então, "cadê" que eu falava isto com as pessoas... não, não. Eu me fechava em uma concha e confesso que tive vergonha de mim mesma. Ah, achava que a grama do vizinho era bem mais verde que a minha.

Captou como acabamos engolidos pela massa?

Mas na verdade, fugir do problema a ter que encará-lo de frente é apenas adiar algo que um dia retornará, é um ciclo. E assumir aquilo que é real, sua verdadeira história pode até ser difícil, mas nada como viver sem omissões. A gente se sente bem mais leve...

***

Daí que a vida correu... eu corri também, mas atrás do meu desejo em ser mãe e foi assim que eu apareci, de repente, com dois filhos a tira colo e claro, as perguntas mais que compreensíveis surgiam:

_ São seus sobrinhos Ju?
_Quem são estes meninos? Nossa, eu nem te vi grávida...

Normal né, gente? 

Eu também faria e faço o mesmo!! Estas são as famosas gafes saudáveis, tranquilas  e eu levo numa boa. Na verdade, até faço piada com isso. 

Agora, vamos combinar que também ouvi muita bobagem, que nem vale a pena registrar. Mas, registro ou não, estas bobagens foram o pontapé para minha exposição. Não dá pra sair brigando com tudo e todos, não dá. Mas escrever foi uma alforria, ôooo delícia!! Não que eu tivesse reservas ou fosse uma pessoa tímida antes de ser mãe, pelo contrário, sempre fui muito espontânea e extrovertida, já falei em congressos e palestras, mas nada se compara a isto. Palestrar sobre um tema acadêmico é uma coisa, e falar sobre seus próprios fantasmas, seus medos, SEUS ERROS e compartilha-los publicamente é algo bem diferente.

Quem tem coragem? Fazer isto é ter uma predisposição a críticas e opiniões provenientes das mais diversas crenças (sem dar aqui o sentido religioso).
Um dia, uma pessoa com a melhor das intenções (munida de suas próprias crenças), me deu este conselho:
"Você não precisa falar pra ninguém que eles são adotivos, isto pode afastar algumas pessoas de vocês"....

Quando eu ouvi este conselho, fiquei indignada, juro. Foi como acender uma faísca perto de um combustível e logo pensei: E porquê não? 

Negar uma realidade para agradar a quem? Falar a verdade desmereceria meus filhos? 

Eu concordo plenamente que omitir este fato com uma criança que foi acolhida ou adotada com apenas dias ou meses é uma coisa, mas em uma adoção tardia? Não faz sentido algum, pelo menos não pra mim.

Já o blog, esta vida virtual e paralela me ajudou sim e muito, em vários sentidos. Como eu disse acima, foi como ter medo de altura e "dar uma volta de balão", mas confesso que muitas vezes pensei e penso em parar. E quando faço isto, recebo um e-mail ou um comentário de alguém que me diz ter começado a enxergar a adoção de uma forma mais natural, menos pesada e pejorativa e então, volto a ter coragem. O blog me ajuda a encarar os fatos de uma forma, digamos, menos melindrosa e pretendo, claro, mostrar que a maternidade é a mesma para todos e que filhos adotivos e biológicos nos trazem orgulhos e problemas sim, ou não?

Eu não sou menos mãe por nunca ter engravidado, parido ou amamentado um filho e eles, em contrapartida, não são menos filhos, menos netos, menos sobrinhos... eles vieram de uma forma diferente, C'est ça! Nada além disso. Claro que algumas intercorrências e abordagens têm que ter uma tratativa diferente, mas nada que nos coloque em um nicho particular e isolado.

E ah!! Volto a dizer: Não fiz caridade, não sou santa e nem perfeita e como eu, meus filhos também erram!!  Digamos assim, que estamos todos em fase de aprendizagem.  E por falar nisso,  "bora" aprender mais um pouco?

 Que tal começarmos sobre:  Como tolerar as diferenças? 



Bisous, Pandora Sincera


16 comentários:

  1. Muito legal esse post Ju!!! Concordo muito com vc sobre como nos faz bem colocar nossos fantasmas pra fora... e mesmo que a gente ouça tantas bobagens por aqui (tenho ulceraaas) a gente também ganha apoio e provoca empatia nas pessoas que estão abertas pra isso...
    Eu não sou mãe adotiva, mas sempre pensei (e ainda penso) em ser então adoro poder partilhar da tua experiência! E sem duvida alguma, TU ES TÃO MÃE QUANTO QUALQUER MÃE! (Por isso que eu fico tiririca quando ouço certas "verdades" nessa blogsfera materna que definem maternidade sem considerar as mães adotivas, as mães solteiras... enfim! Estamos todos no mesmo barco e todas merecemos respeito!!!

    ps: venham nos visitar aqui em Paris Ju!!! Vou adorar conhecer vc e seus petits!!!

    bjus!

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  2. Fantástico esse teu post Juliana. Bem, acho que talvez eu não tenha coragem de dar uma volta de balão ainda, até criei um blog e concordo contigo que escrever nos ajuda mas eu tenho muita dificuldade em me expor.

    Ainda estou na batalha tentando engravidar, mas com certeza foi teu blog que me ajudou a enxergar a adoção de uma forma diferente, que está me mostrando que sim, podemos amar alguém que não nasceu da gente (e esse sempre foi meu maior medo).

    bjo

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  3. Jú...quando diz, "fui apresentada ao mundo adulto", posso dizer que é exatamente assim que me vi, eu vivia em uma casinha de boneca e quando me dei conta estava afundando junto com minhas frustrações e minha ansiedade.
    Hoje estou bem melhor, e juro que o blog e as pessoas que Deus colocou na minha vida de Ns formas, foram fundamentais.
    Não para de escrever, não, seu blog é muito importante para mim.
    Bjssss.

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  4. Olá,

    Dei uma passadinha aqui nos comentários para dizer o quanto gosto do blog e que a enxergo como mãe apenas, no teu blog venho ler as aventuras da vida maternal e me preparar para passar pelo mesmo mais para a frente (minha filhota ainda só está nos 7 meses) e moramos em Portugal - claro que não posso comparar com a Suiça mas é ser mãe brasileira no exterior :)

    Bjs!

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  5. Ju, seria triste perdermos uma blogueira transparente e autêntica como você. Que bom que você vem partilhar assuntos de adoção, falar dos seus erros e acertos, e de quebra, ajudar outras mães. Parabéns pela coragem! Beijo

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  6. Oi! Passei por alguns problemas parecidos com os seus (endometriose, dois abortos, curetagens, sentimentos conturbados etc etc e etc) e agora eu e meu marido estamos habilitados para adotar um filho. E eu adoro ler as suas histórias e a sua visão da maternidade. Aprendo com as suas experiências a me preparar para quando o meu filhote chegar. Bjos!

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  7. Adorei o post Ju. Acho que esse é o caminho certo. Tenho certeza que sua história, seus depoimentos ajudam muitas mães que estão no processo de adoção e quer saber ajuda todas nós. Particularmente adoro acompanhar a história da sua família, a relação que apresentam e todos os problemas que surgem.
    Afinal, qual é a mãe que não tem problemas, fantasmas e medos? São apenas DIFERENTES!
    Agora não desiste não de escrever, como ficam as amigas aqui?
    Você é muito corajosa, viu? E não tem por que não expor essa linda história de vida!!!!
    Beijos, beijos
    Sabe que tenho uma super amiga que mora no Brasil, por sinal madrinha do Felipe que entrou com o processo de adoção faz pouco tempo. Ela também tem endometriose e passou por bocados, assim como você... Agora, são outros medos que está vivendo... Sabe que você é um exemplo Ju. Sempre falo de você para ela, como tudo, apesar de grandes batalhas, deu certo! Posso compartilhar esse post com ela, né?

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  8. Oi meninas, como é gostoso ler tudo isso!! Obrigada ao carinho de cada uma!!
    Celi, claro que pode!! Espero que ela tenha tanta sorte como nós!! Um beijo grande, Ju

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  9. Juliana, não pare de escrever não... há realmente muito preconceito em torno da adoção, e sua história é um exemplo lindo de que maternidade é maternidade, família é família, não importa como foi sua origem. Importa mesmo é ter amor, disposição e muita vontade de fazer dar certo, sejam nossos filhos biológicos ou não.
    Escrever e se expor é uma maneira de lidar com os próprios fantasmas sim, pra mim também é, assim como é uma delícia ter a solidariedade e o carinho de pessoas que a gente nem conhece de fato. Continua escrevendo sim, não nos deixe...
    beijos!

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  10. D.Pandora a sra está com tudo einh?? Adorei o post, muito esclarecedor :D Eu prefiro apenas escrever sobre nosso dia a dia no meu blog, acho que não tive coragem ainda de passear de balão... Ah, só mais uma coisinha: nem pense em parar com o blog, eu simplesmente amo passar por aqui e ler suas histórias!! Bjos e boa semana ;)

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  11. Oi Ju,
    você encontrou uma forma linda de dar a resposta para as visões equivocadas do mundo.

    E também vim aqui pra te dizer que te vejo como uma mãe como outra qualquer, com dúvidas, anseios e felicidades em relação à formação de duas novas vidinhas.

    O fato de terem sido adotados só dá um tom ainda mais doce às histórias!

    Beijos

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  12. Ju, persista! Sua luta não é fácil... Mas nunca li em algum livro de história uma luta por ideais ter sido fácil! Tanto as para o bem, quanto para o mal...

    Eu sinto muita firmeza de sua parte quando leio sobre suas decisões aqui. Não há motivo para escondê-las ou maquiá-las. Você gosta da sua história, de todos os capítulos, tristes e felizes. E já viu como pode impactar positivamente outros com ela... é a tal da "corrente do bem"!

    Quanto ao blog, pense que você não precisa se prender ao formato dessa ferramenta eternamente! Não há contratos! :) o que precisa te mover é o prazer de escrever, da interação com seus leitores, e a causa! Pode ser que um dia vc decida parar com ela, transformá-lo num blog de... cosméticos (rs)... ou só desacelerar! e tudo bem! :)

    Beijos querida!
    Mari

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  13. JU, vc eh mais mae que muita gente que pariu... acredite pois vejo cada coisa que aff..
    e adoro seu blog!!!! aprendo e reflito muito com seus posts... e tenho so que agradecer por vc me deixar fazer parte da sua vida, mesmo que de longe.. mesmo que um pouquinho :)
    bjs com carinho...
    dani

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  14. Olá Juliana, meu nome é Adriana e conheci seu blog através de uma grande amiga.
    Me identifiquei com sua história de cara, rsrsrs.....tenho endometriose, fiz fertilização, perdi.....
    Estamos entrando na fila para adoção e sabe como são as coisas por aqui.....difíceis, demoradas.... enfim, ADOREI seu post, você tem toda razão em seus comentários, penso muito nisso, em como as pessoas vão reagir com os filhos.....
    Obrigada por escrever tão bem e me fazer sentir melhor!!!!! Virei sua seguidora!!!!!
    Bjs

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  15. Ju querida
    Gosto muito das suas reflexões.
    Adorei este post, alias,adoro o blog todo.
    Tolerar as diferenças...um grande exercício, afinal temos tantos "pré-conceitos" e devemos trabalhá-los, não é mesmo?!
    Bjks mil pra vcs

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  16. Ju, acho que dar nome, sobrenome e até apelido aos nossos sentimentos é muito importante e aqui vc faz isso e faz bem.. Estou desde ano passado inserida no mundo da adoção e descobri que tudo é muito complexo.. e não menos apaixonante.. e falo muito sobre o assunto e ouço absurdos.. mas continuo falando, ppstando no facebook, pq acredito que falar sobre o assunto é um caminho para diminuir os preconceitos!!! Continue se expondo, continue escrevendo!!! Bjsssssssss

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