quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A construção do vínculo na relação afetiva.

Nem sempre o óbvio, é óbvio.
Nem sempre o que eu vejo é claro para o outro.
Nem sempre sou racional.

Hoje, a caminho de uma conversa com a psicóloga de "Tom", eu e o marido conversamos sobre um assunto que, creio eu, foi mais válido que a própria conversa que a que tivemos com a profissional.

Contemplamos a respeito deste garoto que tem um coração enorme. Ele é a gentileza em pessoa!
Tête-à-tête, ele é uma criança apaixonante, e não é papo de mãe não, heim? Ele conversa, ouve e inspira a contação de muitas estórias pelos adultos. Um fofo! A questão é no grupo.

Não sabemos ao certo se esta dificuldade provém de sua experiência no abrigo com outras crianças, pois algumas vezes presenciamos umas brigas entre ele e outra criança que também morava lá, ou de qualquer associação que por ventura ele possa vir a fazer em um ambiente com mais estímulos. O fato é que ele, dentro do grupo, extrapola. Ele assume uma tonicidade corporal visível e a agitação predomina, o tornando o dono do barulho, dos grunhidos, correrias e afins. O que não é errado, mas um pouco exagerado e desta forma, o leva a necessitar de um trabalho terapêutico, como tem feito.

Seria, esta dificuldade, uma forma de chamar atenção dos outros? Ou, conforme diz o ditado popular, "o buraco é mais embaixo"?

Na minha opinião, a segunda opção.

Pelo histórico que temos de sua experiência de vida dele até os quatro anos, destes quatro, dois em um abrigo, penso que para ele, amar pode estar relacionado à dor. Imagine uma criança que não teve os cuidados necessários enquanto bebê, que teve desta forma, que aprender a se defender de um sentimento que é nato, em nós seres humanos, pois gostamos sim de sermos cuidados, de nos sentirmos amados.

Pense que, quando este cuidado falta por algum motivo, temos que aprender a lidar com as ferramentas internas que dispomos, e a maior delas, é a defesa, certo?

Defesa do quê? De quem?

Do vínculo. Do amor. 

Estar tranquilo é deixar que o outro se aproxime, e de uma certa forma, que se aproprie de nós.

É se deixar ler, é conhecer o outro da forma mais íntima e tornar-se vulnerável. É deixar-se amar e amar junto (sem medo), nem que seja em uma brincadeira de pega-pega, ou na construção de uma torre de plástico juntos. A relação é de cuidado, de amor e da construção de vínculos afetivos. Uma relação inter-pessoal plena, sem limitadores.

Quem se defende da aproximação por medo da entrega, repele. Repele o outro (ou os outros) das mais diversas formas. No tapa (o que não é o caso), no grito, na agitação, na hostilidade, no excesso... ou simplesmente, na não disposição ao vínculo. Afastar-se é a melhor saída. Só que não.

É assim que leio meu pequeno-grande menino. É a forma como sinto o que as palavras não dizem, ainda. Uma criança de 6 1/2 anos que demonstra uma dificuldade enorme e compreensível ao estabelecer vínculos duradouros, pois fazê-lo, seria arriscado demais. Amar de novo? Me entregar como o fiz tão pequeno e correr o risco de perder, ter que me desapropriar de algo tão bom?

Temos, eu, meu marido, nossa família, escola, profissionais que o acompanham (psicóloga e logopedista*) tentado re-estabelecer a ideia de um vínculo de amor que durará pra sempre, independente de qualquer coisa, de mudança, distâncias e afins. O importante é a certeza de que estamos juntos.


* Definição de Logopedia / Logopedista, aqui. 


Bisous, Pandora que filosofa







12 comentários:

  1. Vim aqui fazer um convite especial...

    Passa lá no meu blog pois vai rolar uma blogagem coletiva muito especial, sobre alimentação saudável na infância. Assunto sério e importante, participa com a gente!

    www.asosmamaenadia.com

    Beijos!

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  2. Ju, faz todo sentido o que vc disse!!! É só defesa dele, é claro que é...
    Claro que nós enxergamos com o coração e vemos todo o contexto (coisa que quem só participa da vida dele agora pode não concordar, mas vc sabe o que é), nós (mãe/pai) temos a fotografia completa, não partimos do princípio de tentar entender o que se passa na cabecinha dele agora, vc já sabe o que se passa há mto tempo, desde que ele nasceu... mesmo que não estivesse do lado dele neste momento. Vc é mãe e vc sabe o que pode chatear o teu filhinho.
    Cuide bem dele, como sempre fez e fará. Continue sendo esta mãe nota mil que vc é, cuidadosa, amorosa, coruja, feliz, entregue.... e eu tenho certeza de que ele melhorará mto a sua atitude com o passar do tempo (mesmo que este tempo seja bastante para vc, terá que ser o tempo certo para ele).

    Adoro os teus pequenos e os acho grande vencedores nesta vida, mesmo tão jovens. Especialmente o Gabriel, que tanto sofreu e filtrou mta coisa para o seu irmãozinho, ele é meu xodó.
    E a foto deles dormindo abraçados no primeiro dia com vcs é a foto que mais me emocionou neste mundo inteiro, até hoje eu me lembro e dá vontade de chorar de emoção (olhos marejados, sem brincadeira, em pleno trabalho).

    Beijos, querida, fiquem bem!

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    1. Você Dani, uma amiga tão longe e tão próxima. Consegue entender cada palavra, com uma sensibilidade pura e sincera.
      Agora, quem ficou com os olhos marejados fui eu. Aquela foto é linda e revela muita coisa, muito além da foto.
      Um beijo grande querida!

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  3. Ju, acho que vc está super certa. E' compreensível que o Gabriel sinta esse desprendimento, amar tbm e' uma construção diária. Por 4 anos ele não teve uma amor sólido, real, e 4 anos e' muito tempo, mesmo pra ele, que era pitico. Quem disse que a gente não sente isso em mais tenra idade. Sente sim!

    Mas acredito que o tempo, o amor que vcs oferecem pra eles diariamente vai abrindo caminho nesse coraçãozinho. Sou daquelas que acredita que o amor sempre vence! Por tanto, já dou como certa essa conquista de vcs! ;-)

    Ahh.. vi teu comentário no post da amamentação, a gente sofre, fica meio pinel, se culpa, culpa o mundo, até ver que foi como tinha que ser né?!
    E vc perguntou se pode linkar, pode sim viu!!!

    Beijos
    E muita energia positiva!!!

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  4. Ju, você já imaginou quantos amigos ele viu partir? Quantas amizades ele teve que sufocar porque a outra parte foi embora? As crianças guardam todas essas marcas, algumas vezes mais do que os adultos. Acho que você está certa, mas concordo com Ivana, no post acima. O amor resolverá qualquer marca, a desconfiança, possibilitando novos laços. Ele precisa de tempo para entender que a perda também é construção. Um amigo se vai, mas quantos outros podemos encontrar pela vida? E, a vida dele também mudou tanto, foram muitas coisas para digerir! Quanto a extrapolar, ele precisa disso, porque hoje ele pode ter esse destaque. Ele era uma criança a mais no abrigo. Talvez, não tivesse o espaço de interação, a possibilidade de ser Gabriel. Hoje, ele é um indivíduo, tem o espaço dele, a casa dele, os brinquedos dele, tem pais com tempo para ele. Enfrentar isso pode ser dificil. A questão do cuidado também, como você colocou, é outro fator. As crianças demandam cuidado, que é uma forma de vínculo. Os cuidados, a atenção e todo o acompanhamento que vocês tem ajudarão a vencer este desafio e a construir novos vínculos, baseados no amor. Já assistiu o filme "O contador de histórias"? Quantas vezes? O amor é a peça fundamental para retomar os vínculos! Força na peruca e muito amor!! Beijos pros 4, Maria

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  5. Querida Jú,

    Concordo com suas percepções de mãe cuidadosa e amorosa que é! Na minha experiência com crianças abrigadas vemos isso toda hora: a dificuldade em se entregar para uma nova relação! Como vc já disse é uma defesa e só para lembrar de vez em quando, defesa serve para proteger!! E vejo que vc e o Gustavo estão sabendo, de forma linda e muito amorosa, conduzir seu filho no caminho da cura através do amor!! Como disse a Maria, o amor é o caminho para curar qualquer desvio!!
    Essa agitação, seja ela provinda de qualquer forma, nada mais é do que uma forma de se distrair dele mesmo (dos seus sentimentos) e afastar qualquer possibilidade de contato mais íntimo, tudo por medo mesmo!! Como vcs já perceberam!!
    Continuem sendo esses pais companheiros, amorosos e acima de tudo desenvolvam muita aceitação desse Gabrielzinho que se apresenta diante de vcs, pois sendo aceito ele terá a confiança necessária para poder ser quem ele quiser a da forma que ele achar melhor no momento!!
    Beijos com carinho...Marcella.

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  6. Ju também sou da opinião que é só uma defesa do Gabriel. Na verdade, uma maneira de sentir-se mais seguro, ter em mãos algo que até então faltou muito para ele. Vocês, pais, tão carinhosos estão pouco a pouco dando o que ele mais precisa nesse momento: uma base sólida, uma vida "segura", mais "estável" rodeada de amor, respeito e carinho. Parabéns amiga por ser essa mãe tão especial, dedicada e que está sempre atenta as especificidades de cada um dos seus filhos. Eles serão sempre muito felizes ao seu lado e do Gustavo. Tenho certeza disso!
    Agora, me fala o que foi esse vídeo. Que cuidado, que zelo e amor pelo irmão. Lindo de ver! Uma relação construída... Que bom que estão juntos! Que bom que vocês passaram por cima de muitas falas, de um tanto de sentimentos para dar essa oportunidade a essa família maravilhosa.
    Beijos, beijos para vocês quatro.

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  7. Ai Ju, as meninas já escreveram tudo o que eu ia escrever... fiquei com os olhos marejados tbm...
    Vai em frente, vc esta no caminho certo!
    Fiquem com Deus!
    Dani dos 8

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  8. O Gabriel é mesmo um menino forte. Creio piamente que com todo esse amor, apoio e pais tão maravilhosos pra chamar de seu, unicamente, exclusivamente seu e do irmão, ele vai desabrochar, soltar as vivências antigas e vai estar apto a ser uma criança de sentimentos desegavetados. Parei pra pensar no vazio que deve ser pra uma criança indefesa crescer sem esse alicerce forte que é o amor, o aconchego do seio familiar. Ele supera, é um gerreiro protetor do irmão. Gostaria de vê-lo homem, vitorioso e aplaudir o sucesso dele de pé! Vc é uma super mãe.

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  9. Juliana, adorei ler o que li, sobretudo porque nós, aqui em casa, observamos muito essa relação que a nossa filha tem com o social. Ela foi privada de qualquer contato (com exceção do estritamente necessário) até 1 ano e meio de vida. Vivia em um chiqueirinho com uma boneca, nunca tinha posto o pé no chão. Não sabia falar nem andar, não sabia o que era mãe pq nunca a teve. Quando alguém a percebeu finalmente, e iniciou um trabalho de inserção no mundo, ela gritava de tanto medo de colocar os pés no chão. Tinha pavor da aproximação de qualquer pessoa e tudo, absolutamente tudo a assustava. Acho que não preciso dizer pra vc que nós, mães, não temos peninha. Nós a adotamos de alma e coração, portanto a história dela também é nossa. Mas é inegável o preço que ela paga por conta dessa trajetória tão dura logo nos primeiros meses de vida, quando o afeto é necessário para a sobrevivência. Eu penso que você sente assim como nós, esse desejo absurdo de mergulhar no universo do Gabriel e tratar de suas feridas, de fazer aquela mágica que só o amor sabe fazer: mostrar que a vida pode ser difícil sim, mas é infinitamente melhor ao lado das pessoas que amamos. Mas o mais curioso de tudo isso é que esses pequenos, sem saber, nos ensinam diariamente o verdadeiro sentido de ser família =) Beijo grande, fazia tempo que não passava por aqui, estava com saudade!

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  10. Oi!
    eu fiquei emocionada ao vê-los descer de maos dadas...

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