quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Minha relação com a amamentação.

Este post contém fragmentos de uma história que custei a colocar pra fora...
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Eu queria ter escrito este texto ainda adolescente, pois desde aquela época o tema amamentação surgiu na primeira terapia que procurei sozinha, na tentativa de tentar entender o incomodo que insistia em aparecer e eu não sabia de onde.

Na época, me indicaram um então conceituado profissional e foi então que comecei a fazer parte de um grupo selecto de pessoas que leram o prospecto de um dos livros escritos por ele, antes de ser publicado: "Terapia pela roupa", do psicólogo Mamede Alcântara. Meu nome está lá, nos agradecimentos :-), é só conferir.

Durante um momento da terapia, surgiu no inconsciente um sentimento estranho. Eu sentia uma fome e uma dor muito grande, como uma agonia mesmo. Chorei, tive cólicas, me contorci. Neste momento, ele me pediu para chegar em casa e conversar com minha mãe e saber um pouco mais sobre meu nascimento, meu parto, enfim, meu passado.

Minha mãe (mãe de três), uma pessoa muito sábia, que sempre conversou muito conosco, não se intimidou. Ao questiona-la, ela me falou aquilo que eu já sabia, mas com mais detalhes. A conversa, foi mais ou menos assim:

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"Quando eu fiquei sabendo que estava grávida de você, levei um susto muito grande. Eu já tinha dois filhos, morava longe da família e a diferença entre você e seus irmãos é pequena (uma escadinha de dois em dois anos). Então, descobri que sua irmã estava com rubéola,  e comecei a me sentir mal, a ter tonturas e enjôos. Foi neste período que fiquei sabendo que estava grávida novamente. Imagine uma época onde não existia ultra-som e a informação que tínhamos era de que se o feto fosse contaminado poderia nascer com muitos problemas. Então, apesar de lhe querer, sua gestação passou por períodos tensos. E você nasceu, linda e perfeita! Foi um alivio saber que você estava bem, mas a consequência disto foi que meu leite "secou". Te amamentei poucas vezes e você começou a ter muitos problemas. Naquela época o leite de vaca já não era recomendado e então, começamos a procurar amas de leite pra você (o que era permitido). As amas de leite eram pessoas que tinham tido filhos na mesma época e estavam amamentando. Eu chegava com você nos braços e pedia para deixar você mamar também. Muitas, seguravam você e o filho ao mesmo tempo, um em cada peito. O que era lindo, ao mesmo tempo não era muito bem vindo. Algumas estavam cansadas e apesar de nunca negarem o peito a você, a mamãe sentia que estavam exaustas. Ao todo foram cinco amas de leite, muita gente ajudando. Seu avô paterno, nos levava para todos os lados em sua Brasília, ele foi um verdadeiro anjo. Mas você começou a apresentar sintomas alérgicos, não aceitava leite de nenhuma mama mais e tivemos que interna-la. Você chorava muito, muito mesmo. Acredito que era a dor da fome que sentia."
Bom, fiquei um bom tempo internada, desacreditada e um dia, minha mãe ajoelhou-se no hospital e prometeu que se eu me recuperasse ela costuraria pijamas de flanela para todas as crianças carentes que estavam na enfermaria. Fé e amor se uniram e eu me recuperei.

Ok. Não sei porque, mas escrever e falar sobre isto quase trinta e oito anos depois, faz-se necessário por algum motivo. De alguma forma alivia. 

Quanto às minhas amas de leite, conheci todas, como também conheci meus irmãos de leite. Mamamos juntos e eles (as) dividiram comigo uma dádiva, amor em líquido. Sou grata a todas as amas, algumas, já no andar de cima. Meu eterno agradecimento!

Mas a história da amamentação e esta relação na minha vida, não acaba por aqui. Ela volta, trazida pelo elo empático que me une aos meus filhos.

Meus filhos nasceram dos mesmos pais. Eles são irmãos biológicos, diferentes, mas que segundo o relato que temos nos autos do processo, nasceram de uma família monogâmica. Os pais biológicos, acusados por negligência, não ofereciam os cuidados necessários à sobrevivência dos mesmos, o que levou o Estado  a retirar a guarda dos mesmos. A mãe biológica, os amamentou até aproximadamente um ano, mas nenhum outro alimento fez parte da dieta, mesmo após os seis meses, momento em que são introduzidos novos alimentos. A partir dali, quando a criança tem fome e necessita de alimentos sólidos,  de exercitar o movimento da mastigação, nada os era oferecido. O papel, a função, era amamentar, nada mais (nada mesmo).

Então, eu tenho um paradoxo muito grande. Um agradecimento enorme a esta pessoa que trouxe ao mundo meus filhos e principalmente por ter-lhes apresentado o primeiro vínculo de amor, que é o peito, o leite materno, o contato pele-a pele e o cheiro. Mas ao mesmo tempo, me dói a ideia de que meus filhos tiveram também, uma ideia de amor associado a dor, pois apesar de querer não pensar, me vem a "sutil" ideia de que eles tiveram muita fome, principalmente após os seis meses de vida.

É muita "neura"? Pode falar gente.

E quais foram as consequências desta relação?

Eu ainda não consigo dimensionar.  Mas bem no início da adoção, meus filhos pediram para mamar no meu peito várias vezes.  Acredito que se eles fossem bebês de até dois anos eu até tentaria, pois muitas mães adotivas conseguem fazer isto com os filhos, mas no meu caso eles eram maiores.

Durante estes dois anos e oito meses juntos, ainda vejo fragmentos deste período. O caçula, por exemplo, não pode ver uma mãe amamentando um mesmo um animal amamentando sua cria que fica hipnotizado, literalmente. A última vez foi na "Casa do Papai Noel", onde havia um gatinho de pelúcia amamentando vários filhotes. Ele parou, ficou um tempo contemplando a cena e ainda pediu para o irmão ficar em silêncio, pois ele queria apenas olhar. Perdi a conta de quantas vezes eles me perguntaram se eu os amamentei.

Corta o coração? Corta.

Eu engulo seco, pois por muito menos, sinto até hoje a falta que a amamentação fez em minha vida como mulher e também, em minha vida como Mãe.

E acreditem.  É muito difícil me expor assim e expor uma parte da história dos meus filhos, crianças que tanto admiro. Mas este blog, "Contos de uma Mãe Pandora" não tem este nome à toa, não. Nós, mães, mulheres, retiramos de dentro de nossa "caixa" interna, sentimentos de diversas natureza e algumas vezes, a dor, é um deles.

Amamentação é dádiva. Queria eu ter tido esta oportunidade de criar este vínculo com meus filhos, mas a vida me trouxe um novo caminho e é nele que me encontro e me acho.



E lá vou eu, seguindo em frente!
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Bisous, Pandora bem resolvida


12 comentários:

  1. Ju que lindo! Não fazia ideia da sua história sobre amamentação, apenas sabia sobre os meninos. Talvez tenha sim uma relação, mas o que importa é que toda essa história fez vc ser essa mãe preocupada, cuidadosa e amada pelos seus filhos. Parabéns pela dedicação e pela bela história, lição de vida que compartilha com todas nós.
    Um grande beijo.

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    1. Celi, foi um dos posts mais difíceis de escrever, mas a sinceridade vem em primeiro lugar, não é mesmo?
      Beijos

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  2. Ju, concordo com voce! Amamentaçao é dadiva!! E o alimento do corpo e da alma...
    Feliz da mae que tem leite a vontade e pode amamentar normalmente seu filho ate nao poder mais.
    Um beijo querida!
    Monica

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  3. Juliana, que lindo!

    Ó, minha relação com a amamentação foi igual a de muitas mulheres por ai. Por despreparo, desinformação e acaso do destino, eu não amamentei meu filho. Era um sonho, mas não deu certo.
    No começo me senti culpada pela não produção de leite. Mas com o tempo consegui resolver essa questão.
    Não antes de chegar a outra conclusão pior! Eu deixei meu filho com fome, eu deixei meu filho chorar tanto até ficar sem voz. De fome.
    Essa conclusão foi MUITO pior que a outra. Cada vez que eu lembro, eu ainda sinto vontade de chorar. Já me senti pior, hoje estou começando a enxergar sob uma luz diferente. Um dia eu consigo!

    Se ainda não viu o texto que fiz sobre esse assunto, deixo aqui o link:http://odonodomeumundoazul.blogspot.com.br/2012/04/e-comigo-foi-assim.html

    Beijos

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    1. Oi Ivana, nossa, deve ser mesmo muito difícil. Acredito que o arrependimento ainda pode ser mais cruel. Que bom que você tem conseguido resolver tudo isso, afinal, só o tempo é que cura realmente, não é?
      Claro que quero ler, aliás, já estou indo. Obrigada por compartilhar!!

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  4. Ju, belíssimo relato! Obrigada por compartilhar com a gente algo tao intimo, mas tao comum a tantas mulheres! Eu nao consegui amamentar o Nicolas e entendo o vazio que isso deixa. Mas sei que fiz o melhor que eu pude e dei a ele todo o meu amor, mesmo ao segura-lo no colo pra dar uma mamadeira.

    Vc é uma mae extraordinária, Ju. Sensível, dedicada e amorosa. E olha que eu te conheço há pouco tempo, mas tudo isso é visível! Nao tenho duvida que o melhor que seus filhos poderiam ter é você na vida deles. Quer sorte maior que essa? O vazio, eu sei que fica, pois amamentar é da nossa natureza, mas por favor, jamais se culpe por nao ter tentado. É muito curiosa a relação do Lucas com a amamentação, mas possivelmente porque foi o "porto-seguro" da relação dele com a mae biológica, ne? Algo que ficou no inconsciente. E veja o lado positivo, que eles pelo menos foram amamentados no peito, ao invés de qualquer leite numa mamadeira mal lavada.

    Faça as pazes com a sua nao amamentação, Ju! Seus filhos são felizes e é isso que importa, ne?

    Beijos com carinho,

    Lu

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    1. Lu, queria eu ser extraordinária! Mas sou super atenta, algumas vezes, extrapolo o limite. Acho que esta ideia de fazer pazes com a minha não amamentação é verdadeira, mas estou chegando lá.
      Obrigada pelo carinho!!

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  5. Muito emocionante isso... forte e intenso....
    Eu quero poder amamentar o meu bb que está pra chegar enquanto for possível é o laço mais forte entre mãe e filho....
    Adorei!!!

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  6. Ju, eu tb não fui muito feliz na amamentação, tive pouco leite e logo secou.. sinto um pouco de tristeza por isso massss assim como uma amiga aí em cima falou dei (e dou) cada mamadeira com muito amor!

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  7. Li com um aperto no coração, pela tua história, pela história dos meninos...
    Li logo após colocar meu filho, que adormeceu no peito, para dormir no bebê conforto ao meu lado...
    Beijos

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  8. Oi D.Pandora, li este post no dia em que vc publicou e até agora ele não me sai do pensamento... Não sei explicar, me tocou láaaaaaaaa no fundo (como diria o Brunão). Acho que é pq qdo eu era pequena fui desmamada cedo (4 meses) além de não ter tido aleitamento materno exclusivo, mesmo minha mãe tendo leite - ela diz que na época não havia tanta informação sobre aleitamento materno, que o bom era dar leite de vaca p/ criança, coisas de quem morava no interior - e com meus irmãos a história se repetiu. Com o agravante de que a licença maternidade era de 4 meses. Eu sempre sentia muita falta da minha mãe quando era eu pequena, ela era professora e trabalhava os 3 períodos do dia, quando estava em casa (raras vezes) estava corrigindo provas, trabalhos, nunca tinha tempo para a molecada (4 filhos). Enfim, voltando à amamentação, quando eu cresci um pouco (por volta de 3 anos) ficava aporrinhando o juizo da minha mãe querendo mamar. Uma vez eu insisti tanto, mas tanto (quando eu tinha uma ideia fixa não desistia, me dava até febre) que a minha mãe por medo que eu ficasse doente me amamentou, mesmo sem leite, e eu jurava que tinha sentido sair leite. Até hoje eu me lembro desse dia e me lembro da sensação de ter tomado o leite dela, acredita? Acho que Freud explica!! Ai, nem sei pq escrevi tudo isso, acho que é pq esse post mexeu realmente comigo ;) bjos :*

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  9. Acabo de conhecer seu blog pelo MMqD e o primeiro post que eu leio é logo este, tão intimo, tão profundo...
    Tenho uma bebê de 10 meses e, desde que ela nasceu, não sei explicar, mas me despertou demais o interesse na adoção tardia.
    Ainda estou amadurecendo esse sentimento e lendo muito a respeito, com certeza passarei aqui muitas vezes!
    Parabens pelos seus meninos e pelo blog!
    Beijos
    Marilia

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